Não sei muito bem como começar a escrever, nem sei bem o que estou a escrever... Algo mudou, e para pior, desde que me tornei “músico” de verdade, ou pelo menos, desde que moldei os meus hábitos de vida.
Bem, não escondo que me sinto um pouco frustrado por todas as mudanças que fiz, mas também não posso esconder a felicidade que tenho no que ganhei, por mudar. Perdi muito de mim, nomeadamente um pouco da minha vida pessoal... um pouco dos meus hábitos, um pouco do meu espaço. Em compensação, ganhei algo extraordinário: um AMOR! Quase como caído do céu, tive a oportunidade de experimentar algo que, por muitos anos, pensei ter mantido contacto. Dizem que os grandes amores vêm de grandes ódios, e, de certa forma, até há alguma razão no centro da expressão. Penso que, depois de todas as mudanças que fiz, posso afirmar que era mesmo necessário faze-las.
Ao longo dos últimos anos tenho pensado em escrever uma espécie de relato de toda a minha vida, mas nunca me senti muito preparado para o fazer, pois o meu prazer por ler livros, por escrever um texto, ou por escrever um poema só é despertado quando me dá aquela vontade enorme de escrever uma música para alguém muito querido, ou então para me mostrar a mim mesmo como estou naquele momento e como me sinto tão apagado! Na semana passada senti uma forte convicção dentro de mim, que me fazia sentir-me capaz de escrever, finalmente, o que sempre quis dar a conhecer: uma história, maravilhosa ou horrenda, mas sobretudo a “Minha” história! Como se costuma dizer, uma imagem vale mais do que mil palavras, mas um testemunho de vida vale mais do que um milhão de imagens.
Bem, já passei um pouco de tudo: passei bem, passei mal, passei modestamente... já senti a vida de várias formas! Já a vi à minha frente, já a vi por trás, já a senti muito longe e já a tive pertinho de mim. Sempre me lembro de ser o que sou, mais coisa menos coisa... sempre mal disposto, desde que me lembro!
Antes dos 11 anos, pelo menos assim de repente, não tive momentos que me marcassem de tal modo ao ponto de recordar perfeitamente. Com esta idade tudo mudou para mim...no dia 28 de Julho de 2002. Ambos foram anos de capicua, tanto os meus 11 anos como o ano de 2002, mas com pequenas/grandes diferenças. O ano de 2002 não me diz nada, nem sequer reconheço nada, actualmente, que identifique esse ano por um feito estrondoso de alguém! Pelo contrário, 11 mudou para 11! Inverteu a ordem dos números mas, apesar de o resultado final ser igual, para mim não foi! Inverteu-me, completamente, a vida. Estava a caminhar numa direcção e inverti completamente o seu sentido. Fui obrigado a trocar algumas coisas que gostava de fazer por algumas que me faziam bem. Foi esse o grande marco que delimitou as minhas duas estremas: antes e depois, e de quê? Bem, antes de saber o significado de uma sigla – AHAI.
Anemia Hemolítica Auto Imune – esta grande preocupação que passou a fazer parte de mim, quer pense nela, quer a ignore. Esta foi a causa da tamanha mudança na minha vida, mas não a única que me fez mudar: mais tarde, novamente tocado pela “sorte”, descobri outra anomalia no meu sistema imunitário. PTI – Purpura Trombocitopénica Ideopática! Mais três nomes, não muito comuns, mas com os quais se vai vivendo, uns dias melhores, outros piores, à espera que, talvez um dia, se descubra de onde veio mesmo isto e se consiga curar de vez. Para mim não há cura para isto, há tratamento. São coisas diferentes, muito diferentes, quando se trata de um assunto tão delicado, tão sensível.
Toda esta história não fazia grande sentido sem que pelo meio houvesse algumas coisas que me marcassem mais ainda! O meu problema com as probabilidades é enorme, mas não no âmbito da matemática em si: é no âmbito da sorte com os assuntos que as envolvem. Possibilidade de síndrome numa pessoa em cada milhão – onde estou eu? No único afectado; probabilidade de “cura” de 95 pessoas em cada 100 que fazem operação ao baço – Onde estou eu? Nos 5 que ficam de fora; probabilidade de 95 pessoas em cada 100 ficarem afectadas, pela positiva, ao serem submetidas a um tratamento com imunoglobulina – Onde estou eu? Nos 5 a quem não acontece nada. Há mais que agora não me recordo, nem é bom pensar nelas.. só me faz sentir mais único, mais especial, e mais diferente de toda a gente que me rodeia.
Ao ver-me deparado com tantos problemas decidi “traçar” um rumo para a minha vida, e nesse rumo inseri algumas proibições que, pelo que li, me fariam bem. Entre elas está o facto de não fumar nem beber bebidas alcoólicas, pois tanto uma como a outra enfatizavam a destruição de glóbulos vermelho e plaquetas. Não sei se o que li é verdade, não sei se o que faço é bom ou não... se calhar estou a perder parte de uma diversão que é comum à maioria dos jovens da minha idade, mas até hoje ainda não consegui descobrir se é felizmente ou infelizmente que não posso beber nem fumar! Sempre que vejo algo relacionado com isso ponho-me a pensar e o que tenho a perder é muito superior ao que tenho a ganhar.
Agora, pensando no que nos chega geneticamente, vejo que sou um pouco parecido e diferente, ao mesmo tempo, dos meus familiares. Todos eles têm personalidades muito fixas, muito rígidas. Todos têm os seus ideais e fazem tudo para os alcançar. Todos têm, de uma forma ou de outra, um sonho que vão concretizando ao longo da vida... eu não me sinto assim! A minha personalidade forte foi substituída por um sentido de argumentação, um tanto ou quanto, mais desenvolvido do que o normal; sou uma pessoa que se quebra e vai abaixo muito facilmente; o sentido negativista está sempre presente, mesmo que não seja essa a minha vontade; basicamente, tudo isto se resume: prefiro "ver feliz "do que "ser feliz"! Cheguei a uma dimensão das coisas em que já não consigo voltar para trás e parece que estou sempre com a mesma ideia na cabeça – procurar o momento em que vou “aterrar” de novo! Estou sempre à espera que o tempo passe até chegar ao dia em que vou sentir mais dificuldades, em que me vou sentir pressionado para fazer algo... Sempre trabalhei sobre pressão, aliás, só assim é que trabalho com segurança, for o que for o trabalho. É ridículo, alguém que se vai abaixo tão facilmente procurar fazer sempre tudo em cima do joelho, mas o que e certo é que esse “em cima do joelho” me pressiona de tal forma que faço o trabalho mais bem feito do que se estiver um ano a trabalhar para ele! Há uma série de coisas que não estou a conseguir controlar neste momento, mas há uma que me preocupa imenso – aquilo que sinto! Estou a sentir neste momento o que deveria estar a sentir daqui a uns 3, 4, 5, 10 anos (quem sabe), na altura do meu casamento. Estou a sentir-me de tal modo “agarrado” a alguém que não consigo largar, não me consigo separar. O sentimento que se gerou entre nós é de tal modo grande que me fez mudar muitas ideias, muitos preconceitos, muitos ideais... e não é errado! Se todos nós fizéssemos isso não haveria tantas discussões, tantos desacertos entre duas pessoas que nutrem o mesmo sentimento. Há quem me diga que isso é um mau hábito, o estar sempre com ela, o fazer tudo com ela... será? Se não se passar tempo juntos como nos havemos de conhecer? Se não se gerar uma certa rotina como haveremos de confiar? Se não criarmos hábitos “iguais” aos dois como é que um dia podemos sonhar num acordo?
É sobre isto que ando a pensar há muito tempo... Chegará o dia em que estarei a acabar o curso, e ela ainda estará cá a estudar. Ficaremos mais distantes, mas não haverá uma forma de amenizar isso? Sim, há, e a ideia até é muito simples! Pegando no meu pensamento de há uns meses, fazer dois cursos, é simples e muito eficaz, mas na minha perspectiva não será o mais aceite por parte de alguns! A música não é o mundo que alguém um dia escolheu, é sim UMA OCUPAÇÃO QUE UM DIA SE TORNOU RENTÁVEL, mais para uns, menos para outros. O que é que ando a fazer numa banda de bailes? Ganho dinheiro sim, mas não tenho vida pessoal, não tenho o meu tempo de férias na devida altura, não tenho o que uma pessoa normal tem! Acho que já chega a diferença que tenho de todos os outros... não quero ser diferente ao ponto de deixar a minha namorada em casa, passar um mês quase seguido a tocar e vê-la um mês mais tarde! Onde é que se vê alguém da minha idade conciliar trabalho, escola, entre outras coisas, para se ganhar algum dinheiro quando se tem em casa pais que lhe dão tudo? Se calhar foi e é esse o problema! Sempre habituado a receber tudo, sem o mínimo esforço... e agora deita tudo a perder. A preocupação tem limites, assim como tudo na vida! A única coisa que não tem limites é o AMOR, mas até nele estão a mexer...! Não consigo viver com a ideia de ter que passar uma semana longe de quem amo, quando passar um fim de semana já é um sufoco! Não consigo pensar sequer na ideia de ter que passar o verão sem poder ir de férias com ela, novamente! Parece que se levanta outra ideia: quanto mais tenho mais quero. Mais uma vez pergunto, será errado? Quem não ambiciona um dia ter o seu maior desejo realizado? Quem não ambiciona um dia ter a sua vida melhor do que nunca? Eu tenho-a agora, e a cada dia que passa, apesar de sentir que vou ter que ultrapassar muitas mais barreiras, que todas as que ultrapassei foram muito pequeninas, sinto que é melhor, mais verdadeira, mais justa, e sinto-me mais capaz de a enfrentar! Se há coisa que nunca faço é entrar num “desafio” em que saiba à partida que vou sair derrotado, ou que não vai servir para alcançar nenhum objectivo, mas se assim é, porque é que tenho medo de seguir em frente? Sinto que não sou capaz, única e simplesmente! Sinto que não vou conseguir dar o que sempre quis, da maneira mais natural possível.
E porque é que sinto falta de uma coisa que nunca tive a sério? Porque é que uma coisa que nunca experimentei, de verdade, me faz tanta aflição, me mete tanto medo, me deixa assim tão desanimado?
Eu vivo os melhores dias da minha vida. Estou com a pessoa que amo, estou com a pessoa que me faz sentir como nunca me tinha sentido antes. Sinto-me mais eu, e sinto que, afinal, até posso ser “útil” e importante para alguém, mesmo que isso não seja bem a minha filosofia de vida. Sinto que neste momento tenho tudo para poder fazer uma família, para poder começar com uma vida nova, mas não o posso fazer! A música, o trabalho, as aulas, já me dizem pouco quando penso nela. Eu tenho, e alcancei-o por mérito próprio, o que quero para a minha vida!
Quando se começa a pensar só em si e nas suas ideias provoca-se um estado emocional muito fechado, muito fixo. Eu abri o meu de tal forma que, se pudesse voltar atrás, faria quase tudo igual, Talvez mudasse uma coisa: o facto de ter pensado que era eu a fazer tudo isto.
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